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Trail Running na Patagônia
Quando sonho que estou correndo por algum caminho, sempre vejo muito verde ao redor. Cheiro a chuva e aquele aroma que a terra molhada tem. Sinto o vento e às vezes, um sol que sai e entra.
Carolina Fresno
@carolafresno
E é que minha paixão pelo trail running começou vivendo em Torres del Paine, quando saía para correr pela estrada principal, ou nos aventurávamos em alguma trilha mais desconhecida naqueles dias mais tranquilos de carga de trabalho, para manter a forma e me distrair. Quem poderia imaginar que alguns anos depois eu correria minha primeira ultramaratona (corrida de mais de 42 km) pelos caminhos de a famosa W!

Correr na Patagônia requer técnica, pois é preciso ter em mente que em algum momento o vento aparecerá, aquele que penetra nos ossos e até tira o fôlego. Mas depois, normalmente vem o sol, que cobre cada pedacinho livre de tecido e o enche de energia. O que mais me custa sempre é a chuva. Correr com chuva, onde quer que esteja, não me agrada. Não gosto de não poder enxergar direito (embora com o vento muitas vezes a pessoa esteja como se estivesse vendo, mas não vê, pois precisa encolher a cabeça para o ombro e se proteger), estar molhada e sentir a roupa pesada. Principalmente, porque quando se para, o frio congela até o último fio de cabelo.

Para mim, o clima ideal para correr na Patagônia é aquele que realmente honra a lenda que diz "na Patagônia, em um dia, você pode ter as quatro estações do ano". Sim, correr sob o sol é apreciado, embora canse, desidrate e enfraqueça. O vento é apreciado, porque apesar de fazer frio, muitas vezes a pessoa está suando. A chuva quase nunca agradeço, mas um pouco dela pode ser até benéfico, principalmente para compactar a poeira que se acumula nas trilhas. O que sempre agradeço é quando está parcialmente nublado, porque as nuvens dão um toque mais dramático à paisagem e as cores se contrastam mais. E como não sou daquelas que corre pelo pódio, vou tirando fotos e apreciando a paisagem diante de mim, deixando-me sempre maravilhar pela beleza que a natureza nos oferece.


Lembro-me de alguns anos atrás, na Ultra Fiord, correndo meus segundos 50K (todas as minhas ultras foram de 50 km e na Patagônia), que por um bom tempo nevava com vento branco. Com sorte, tínhamos um metro de visibilidade, mas quando parou de nevar e o vento acalmou, surgiu uma das paisagens mais bonitas que já vi na vida. E é isso que o trail running te proporciona, e especialmente na Patagônia, pois você consegue alcançar distâncias ou áreas que em uma caminhada de 8 horas talvez não conseguisse ver, pois precisaria voltar. Mas o trail oferece paisagens únicas, pois percorre longas distâncias em poucas horas.

O circuito dos Dientes de Navarino foi minha última corrida de 50K, há 2 anos. Totalmente despreparada, com claro sobrepeso e pouca preparação física para a corrida, me lancei de cabeça (porque se algo agradeço é que a vida anterior nas montanhas e os anos como guia de trekking me deram muita paciência e resistência mental). Foi uma corrida difícil, desde o início. Pensei que não passaria pelos cortes de tempo, mas passei. Pensei que não terminaria inteira, e consegui em um tempo que até me envergonha contar, mas com um sorriso que acredito não ter tirado há anos. No dia seguinte mal conseguia me mexer, mas as lembranças de cada segmento da corrida mais bonita que já fiz, até hoje permanecem intactas! E é isso que a Patagônia e correr nela te proporcionam. Sempre que você pensa ter feito a corrida mais bonita, ou visitado o lugar mais remoto e único. Aparece um novo e, você se surpreende novamente!

A Patagônia sempre dá.
Carolina Fresno
@carolafresno
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